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Chetekela, um dos principais representantes do Tchianda em Angola, falou à FM AFRO sobre a sua trajetória artística, a mudança para uma sonoridade mais romântica e a forte ligação às suas origens no Leste do país.
Durante a conversa, o artista revelou que viveu uma depressão profunda após uma separação em 2016, tendo chegado a pensar em pôr fim à própria vida. Segundo ele, a fé, a família e a música foram fundamentais para a sua recuperação. Foi desse período que nasceu “Adrenalina do Amor”, a canção mais marcante da sua carreira.
Chetekela falou ainda sobre o álbum Superação, sobre a dificuldade de conciliar música e formação académica, e reforçou que continua a trabalhar como artista independente, mesmo reconhecendo a existência de monopólios no mercado musical.
A entrevista apresentou um artista resiliente, espiritual, fiel às suas raízes e determinado a elevar o nome de Angola através da música.

Joel Sales

Entrevista Completa

album-art
00:00

FM AFRO: Bom dia, seja bem-vindo. Uma voz bastante conhecida da música nacional. A promessa foi feita e vai ser cumprida. Hoje ele está aqui na cabine: Chetekela.

CHETEKELA: Bom dia! Saudações afro! Que honra. Deixa-me dizer que aqui sinto-me na rádio certa, porque é uma rádio que defende a patente afro. Sinto-me em casa. E deixo também as minhas boas-vindas ao kota Mário. (Risos.)

FM AFRO: Ainda tens memórias da tua participação no Estrelas ao Palco?

CHETEKELA: Tenho, sim.

FM AFRO: Mas, de repente, começámos a ver-te com uma dinâmica mais love, ao estilo de Franco, Koffi Olomide e Fally. O que aconteceu pelo caminho?

CHETEKELA: Antes de mais, agradeço a oportunidade de estar aqui ao microfone da nossa grande rádio FM.AFRO. De coração, agradeço. Bem haja esta rádio por valorizar a africanidade. Eu sou alguém que valoriza muito a nossa africanidade e, por isso, sinto que estou na rádio certa, no momento certo.

Eu ouvia a rádio constantemente, eu e a minha esposa. E dizia sempre: “Um dia vou estar aí.”

A minha história veio mais à tona depois de eu vencer a sexta edição do Unitel Estrelas ao Palco, numa quarta tentativa que acabou por ser definitiva. De lá até 2016, eu era mais dinâmico, muito por causa da própria imagem do programa: coreografia, dança, música.

FM AFRO: Porque aquilo é muito pop, não é?

CHETEKELA: Exatamente. Era muito pop. Mas havia a necessidade de mostrar realmente o meu potencial. Usei o Estrelas ao Palco apenas como um trampolim. O meu potencial ainda era desconhecido e estava em fase de descoberta e evolução.

Gravei um álbum, o PIT, com vários estilos, porque eu precisava auto-descobrir-me. O álbum tinha quinze faixas, e as mais ouvidas eram aquelas em que eu apresentava um lado mais sentimental, mais profundo, mais voltado para a alma. Então fui-me segmentando aos poucos. Não foi algo repentino. Foi feito com muita cautela.

FM AFRO: Não foi o caso de ouvir uma música e decidir seguir aquela linha?

CHETEKELA: Não, jamais. Para quem não conhece o meu processo, pode parecer que a carreira começou depois do sucesso de Adrenalina do Amor, mas não. Vem muito antes disso. O palco do Estrelas ao Palco foi apenas o trampolim.

Antes disso, fiz parte de um grupo coral. Lá, já tínhamos aprendido um pouco sobre melancolia, sentimento e sobre como empregar emoção dentro da música. Isso já existia dentro de mim.

FM AFRO: O que te motivou a mudar a tua performance?

CHETEKELA: O que aconteceu foi que, depois de lançar músicas muito dançantes, comecei a ver que o palco se ia tornando restrito em função da minha própria evolução. Eu não podia continuar sempre a dançar, apesar de ainda conseguir fazê-lo sem problema. (Risos.)

Mas ainda havia algo dentro de mim que poucos conheciam. E, nessa altura, aconteceu algo muito marcante na minha vida: a separação entre mim e a mãe dos meus filhos. Entrei em profunda depressão. Depois conheci a Cláudia, que foi a mulher bendita que me tirou da depressão.

FM AFRO: A tua cura?

CHETEKELA: Exatamente. Foi a minha cura. Depois de oito meses de bom tratamento e de boa convivência, voltei a ser um ser humano sociável. Mas ela anunciou-me que ia para a Espanha, para cinco anos de formação. E exatamente aquela dor que eu carregava, que vinha da relação desfeita, quando eu pensava já ter encontrado a cura, voltou com força.

A minha cabeça entrou num turbilhão de sentimentos. Eu já havia recebido uma profecia de que, no futuro, Deus me concederia uma canção que me acompanharia pela vida inteira e com a qual os casais se identificariam. E foi justamente no relacionamento que eu enfrentei a maior batalha.

Hoje, graças a Deus, sou parte da história de muitos relacionamentos. Testemunho vários dias de consagração de nubentes e outros momentos. Então, digo sempre que foi um mal bem-vindo à minha vida, porque me obrigou a superar e a transformar a dor em arte.

FM AFRO: E é dali que vem Adrenalina do Amor?

CHETEKELA: Foi a primeira canção que eu escrevi.

FM AFRO: A letra dessa canção é muito profunda. O texto, sem melodia, já queima a alma.

CHETEKELA: Exatamente. Vários escritores já me ligaram para saber se realmente fui eu quem compôs. E eu digo sempre que essa é uma canção que veio dos altos. A primeira letra de Adrenalina do Amor foi escrita dentro da igreja, numa vigília, por volta das duas da manhã, enquanto eu carregava aquela dor.

Graças a Deus, hoje Adrenalina do Amor é a canção da minha carreira. Não me permitem sair de um sítio sem cantá-la. E, quando eu não canto, as pessoas reclamam. Dizem: “Todas as músicas são boas, mas aquela é a música do povo.”

FM AFRO: Já aconteceu as pessoas chamarem-te mais de “Cherry” ou “Rei da Adrenalina” do que propriamente pelo teu nome?

CHETEKELA: É verdade. Chamam-me muito de Cherry. Chamam-me Rei da Adrenalina. A Adrenalina é mesmo a minha música. (Risos.)

FM AFRO: Mesmo nessa fase mais romântica, ainda se sente o Tchianda dentro da tua música.

CHETEKELA: Sim, sente-se. Em Adrenalina do Amor e em Vivi Fiel também há percussão de Tchianda.

FM AFRO: Isso tem a ver com as tuas origens?

CHETEKELA: Tem, sim. Não me esqueço da nossa boa percussão afro. A minha origem está no meu sangue. Não há outra patente cultural dentro de mim que não seja o meu Tchianda, o nosso semba, o nosso kuduro e por aí fora.

Como sou do berço do Tchianda, além de valorizar os outros estilos que são característicos cá em Angola, o Tchianda não pode faltar na minha sonoridade. Muitos grandes artistas africanos impactam o mercado internacional justamente por manterem essa fidelidade às suas origens.

FM AFRO: Para quem não sabe, o Chetekela tem a sua raiz no Leste de Angola.

CHETEKELA: Sim, sou da Lunda Norte.

FM AFRO: E por que não dar continuidade direta àquele trabalho iniciado por nomes como Sassa Tchokwe e Mestre Gabriel Tchiema?

CHETEKELA: O meu propósito foi dar mais visibilidade ao próprio Tchianda. Tinha de haver um jovem que soubesse vestir-se, soubesse estar, e assumisse as suas origens. Durante muito tempo, isso era visto como algo apenas dos mais velhos, e não como algo inserido na sociedade moderna. Eu quis mudar essa imagem.

Hoje o nosso Tchianda está no TikTok, está nas redes sociais, porque um jovem assumiu isso com convicção. Quando postei pela primeira vez, foi um estrondo. Disseram-me: “Como é que é? Não podes fazer isso.” E eu disse: “Não, eu vou mostrar o lado forte do Tchianda.”

Com as plataformas que temos, isso expandiu-se tanto que eu venci o prémio de Melhor Artista Masculino dos PALOP, na oitava edição dos prémios AEAUSA, com um Tchianda que nem sequer ainda tinha sido lançado. Pediram conteúdos afros aos cantores dos PALOP. Cada um enviou a sua proposta. Muitos mandaram guetto zouk, rap e outros estilos. Eu enviei Tchianda — e o prémio veio.

Foi uma situação algo tumultuosa no seio artístico, mas o prémio está ali. Veio e é angolano. Graças a Deus, consegui defender a patente e dizer que ganhámos um prémio PALOP com um conteúdo angolano.

FM AFRO: Este trabalho vai integrar um disco?

CHETEKELA: Com certeza. O álbum Superação está a caminho. Vou apenas preparar a minha monografia e concluir a licenciatura. Assim que defender, lanço o álbum.

Já temos muitas músicas gravadas. Algumas continuam a ser feitas e guardadas na base de dados. Como o formato é digital, podemos lançar vinte e duas ou vinte e três faixas, para compensar o tempo em que fiquei sem lançar um álbum. A dinâmica é essa: concluir a licenciatura, lançar um single ou outro e equilibrar os dois lados. É difícil, mas também é prazeroso, porque essa é a nossa sina: sermos fortes e resilientes.

FM AFRO: É mesmo difícil conciliar música e estudos?

CHETEKELA: É verdade. A música é uma profissão muito ciumenta. Se não tiveres capacidade de equilíbrio, ou te inclinas apenas para a carreira musical, ou acabas por ser mediano noutra área. No meu caso, felizmente, tenho tido êxito também na carreira académica.

Mas não é fácil. Há momentos em que tenho de escolher entre um videoclipe e uma prova. Já aconteceu. E isso cobra muito.

FM AFRO: E daqui para frente, o que vamos ter: o cantor ou o gestor?

CHETEKELA: Vamos ter um gestor de carreira e um gestor de empresa, sem deixar de ser cantor. Estou a fazer Gestão de Marketing, mais virado para Ciências Empresariais. Quero ter conhecimento para gerir melhor a minha carreira, ajudar outras carreiras e também contribuir no sector empresarial.

FM AFRO: Vale a pena?

CHETEKELA: Vale, sim. A música distrai muito, os cachês distraem muito, mas o artista precisa saber ler o gráfico da própria carreira. Há um momento em que se está no pico, depois desce, estabiliza e volta a cair. Essa fase crítica é a que eu não quero viver sem preparação.

FM AFRO: Consideras-te uma pessoa espiritual?

CHETEKELA: Sem dúvida. Quem quer impactar a vida de outras pessoas por intermédio da sonoridade, da letra e da música, precisa ser espiritual. No meu caso, essa espiritualidade é cristã, mas sem negar que somos africanos e já tínhamos também uma espiritualidade própria. O importante é que a música venha da alma.

FM AFRO: Por isso as tuas composições apelam tanto ao sentimento?

CHETEKELA: Exatamente. Eu saí de um grupo coral, e ali aprendi que as letras e as melodias tinham de ferir e curar a alma ao mesmo tempo. Levei isso comigo. Quando canto, procuro sempre tocar a pessoa por dentro.

FM AFRO: O que está a ser feito agora?

CHETEKELA: Estou a preparar muitos videoclipes para acompanhar o álbum Superação. Quero lançar entre 10 e 15 videoclipes, todos com qualidade. Não faço videoclipe quando não tenho condições. Quando faço, faço com excelência, porque essa imagem vai para fora de Angola. E quando alguém quiser conhecer Angola, vai muito ao YouTube.

FM AFRO: Quem faz o storyboard dos teus vídeos?

CHETEKELA: Eu e a minha equipa. A ideia nasce numa mente, passa para outra e vamos aperfeiçoando juntos.

FM AFRO: Voltemos ao álbum Superação. O que aconteceu de concreto para esse nome fazer tanto sentido?

CHETEKELA: O título e a alma do álbum nascem da superação das vicissitudes da vida. Se não fosse essa capacidade, eu estaria hoje na estatística dos jovens que, em depressão, acabam por tirar a própria vida. Foi uma fase muito séria, sobretudo depois da separação em 2016.

Comecei a recuperar em setembro daquele ano. Depois disso, ainda levei tempo até reencontrar vontade de fazer música. A vida tinha perdido o sentido para mim. Mas consegui transformar tudo isso em arte.

FM AFRO: Chegaste mesmo a pensar em tirar a própria vida?

CHETEKELA: Sim. Em abril de 2016 eu estava em profunda depressão. Já tinha preparado tudo. Mas, naquele instante, a minha filha regressou da escola num horário em que não devia regressar, e aquilo despertou-me. Ao mesmo tempo, recebi a chamada do meu irmão, que me confrontou com firmeza e me lembrou que eu ainda tinha vida pela frente. Foi um momento decisivo.

FM AFRO: Daí a música surgir também como terapia?

CHETEKELA: Exatamente. A música cura. Cantar no grupo coral e continuar ligado à igreja ajudou-me muito. Foi terapia para a alma.

FM AFRO: A carreira continua a ser bem recebida no Leste?

CHETEKELA: Muito bem recebida. E não só no Leste. Tenho sido bem recebido em várias regiões do país. Gosto de dizer que não sou apenas filho do Leste, sou filho de Angola e da minha África.

FM AFRO: Tens colaborações internacionais em vista?

CHETEKELA: Quero muito. Tenho uma música no álbum para a qual ainda procuro uma voz internacional. Gostava muito que fosse Fally Ipupa ou Ferre Gola. São referências fortíssimas. Temos muito a aprender com esses nossos irmãos.

FM AFRO: O que vem agora?

CHETEKELA: Lancei recentemente a música Estóico do Lar, que apela à união e ao equilíbrio emocional dentro do lar. O videoclipe já está disponível no meu canal de YouTube. Depois virão outros videoclipes, porque já está tudo programado até abril. Mais à frente, vou fechar-me para focar na monografia, nos exames finais e no estágio.

FM AFRO: E como começou a tua ligação com a FM.AFRO?

CHETEKELA: Foi por intermédio do DJ Paulo Alves. Eu já ouvia a rádio e lembro-me especialmente de um sábado em que o kota Mário passou uma sequência fortíssima de músicas africanas. Aquilo marcou-me. Desde então mantive a sintonia e digo com sinceridade: estou na rádio certa.

FM AFRO: Muito bem. O próximo encontro já está marcado. Vamos dar-te tempo para a defesa e depois voltaremos a conversar.

CHETEKELA: Com muita honra. Estamos aqui para equilibrar.

Entrevistador : Mário Santos
Artista : Chetekela
Rádio: FM AFRO 103.3 MHz

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